Materiais 6 min de leitura

Tijolo ecologico (solo-cimento): vale a pena pra construir?

Tijolo ecologico de solo-cimento. Custo, resistencia, processo de producao e comparativo com tijolo ceramico e bloco de concreto.

Por Equipe GuiaReforma

O tijolo ecológico de solo-cimento usa 10% de cimento e 90% de terra peneirada. Não vai ao forno — cura ao ar por 7 dias. O encaixe macho-fêmea dispensa argamassa nas juntas laterais. Bonito, sustentável e… nem sempre mais barato. Para decidir se vale a pena, é preciso entender o que o tijolo ecológico realmente entrega e em quais situações ele perde para o convencional.

O que é o tijolo ecológico de solo-cimento

O tijolo ecológico (também chamado de tijolo prensado, tijolo de solo-cimento ou bloco CINVA-RAM) é fabricado pela mistura de solo argiloso peneirado, cimento Portland e água, prensada a alta pressão em uma prensa mecânica ou hidráulica. O resultado é um bloco denso, dimensionalmente preciso e com sistema de encaixe macho-fêmea nas faces laterais.

A denominação “ecológico” vem do processo: sem queima em forno (diferente do tijolo cerâmico), usa menos energia na fabricação. A terra utilizada pode ser retirada do próprio terreno (se tiver a composição certa), reduzindo frete de material.

Dimensões típicas: 25 × 12,5 × 7,5 cm (padrão mais comum). Alguns fabricantes produzem formatos maiores (25 × 15 × 7,5 cm) para paredes mais espessas.

Peso por unidade: 3,0–4,5 kg, dependendo da densidade.

Resistência mecânica comparada

A ABNT NBR 10832 (Solo-cimento – Fabricação de tijolos maciços) estabelece resistência mínima à compressão de 2,0 MPa. Na prática, os tijolos de qualidade alcançam:

MaterialResistência à compressão (MPa)Uso estrutural
Tijolo ecológico (solo-cimento)2,0–5,0 MPaVedação (não estrutural)
Tijolo cerâmico furado1,5–3,0 MPaVedação
Bloco cerâmico estrutural4,0–10,0 MPaEstrutural
Bloco de concreto estrutural4,0–12,0 MPaEstrutural
Bloco de concreto simples3,0–6,0 MPaVedação

O tijolo ecológico convencional serve para paredes de vedação, não estruturais. Não substitui o bloco de concreto estrutural ou o tijolo cerâmico estrutural em projetos com laje ou pavimentos superiores — a menos que seja especificado por engenheiro com ensaio de resistência do lote.

O sistema construtivo

A grande diferença do tijolo ecológico não é apenas o material — é o sistema de construção:

Encaixe macho-fêmea lateral: As faces laterais do tijolo têm ranhuras que se encaixam uma na outra, eliminando a argamassa nas juntas verticais. Isso acelera a execução e reduz o consumo de argamassa em 40–60% comparado à alvenaria convencional.

Modulação precisa: Por serem prensados com dimensões precisas (variação máxima de 2 mm), os tijolos não pedem ajuste de espessura de junta para nivelar. O assentamento é mais rápido e regular.

Furo passante: O canal central longitudinal permite passar tubulação elétrica (eletroduto) e hidráulica sem quebrar a parede — os furos já estão alinhados quando a parede vai subindo. Isso economiza tempo e mão de obra nas instalações.

Parede aparente: O acabamento final do tijolo ecológico é bonito o suficiente para ficar aparente (sem reboco), apenas com aplicação de selador ou impermeabilizante. Isso elimina o custo de reboco, que nas obras convencionais representa R$ 30–50/m² de mão de obra + material.

Processo de produção

Produção em obra (autoconstrução)

O construtor compra ou aluga a prensa, compra o cimento e usa a terra do terreno. Prensa manual produz 300–500 tijolos por dia (um operário). Prensa motorizada produz 1.000–2.000 tijolos por dia.

Custo de produção manual em obra:

  • Cimento (1 saco de 50 kg rende ~100 tijolos): R$ 35–45/saco = R$ 0,35–0,45 por tijolo
  • Terra: R$ 0 (do terreno) a R$ 0,10/tijolo (compra)
  • Mão de obra de produção: R$ 0,20–0,35/tijolo
  • Custo de produção: R$ 0,55–0,90 por tijolo

Compra pronto de fabricante

Muitos fabricantes vendem o tijolo ecológico pronto, curado e ensaiado. É a opção para quem não tem tempo ou mão de obra para produzir.

Preço de compra: R$ 1,20–2,20 por unidade, dependendo da região e do volume.

Comparativo de custo por m² de parede

O cálculo abaixo considera parede simples de 25 cm de espessura (com tijolo ecológico padrão) e parede de 14 cm com tijolo cerâmico, já que são as comparações mais comuns.

Tipo de alvenariaTijolos/m²Custo material/m²Argamassa/m²Mão de obra/m²Total/m²
Tijolo ecológico (comprado)13 unidR$ 16–29R$ 3–6R$ 25–40R$ 44–75
Tijolo ecológico (produzido em obra)13 unidR$ 7–12R$ 3–6R$ 35–50R$ 45–68
Tijolo cerâmico furado 14x19x2913 unidR$ 23–33R$ 12–18R$ 28–45R$ 63–96
Bloco cerâmico 14x19x29 (vedação)13 unidR$ 23–33R$ 12–18R$ 28–45R$ 63–96
Bloco de concreto 14x19x3912,5 unidR$ 31–44R$ 12–18R$ 28–45R$ 71–107

Se a parede for aparente (sem reboco): subtrai R$ 35–55/m² do custo total da alvenaria convencional. Nesse cenário, o tijolo ecológico fica de R$ 30–45% mais barato no custo total de parede pronta.

Se a parede precisar de reboco: a vantagem se reduz, mas ainda existe pela menor quantidade de argamassa de assentamento.

Vantagens concretas

Economia em instalações elétricas e hidráulicas: O furo passante alinhado elimina a necessidade de rasgos na parede para embutir eletrodutos. Em uma casa de 80 m², a economia de mão de obra de instalações pode chegar a R$ 2.000–4.000.

Menor peso por m² de parede: A parede de tijolo ecológico pesa 180–220 kg/m², enquanto alvenaria convencional chega a 250–300 kg/m². Isso alivia as fundações e pode reduzir o dimensionamento das vigas de baldrame.

Menor geração de resíduos: Sem quebras para rasgo de instalação, a obra gera menos entulho.

Velocidade de execução: Um bom assentador faz 12–15 m² de parede por dia com tijolo ecológico (contra 8–10 m² com tijolo convencional, pela menor necessidade de nivelamento e pela ausência de junta lateral).

Estética natural: Parede aparente de tijolo ecológico tem visual valorizado no mercado — especialmente em projetos de casa de campo, pousada, loja de varejo e construção sustentável.

Limitações que precisam ser consideradas

Exige controle de solo: Nem todo solo é adequado. A terra precisa ter teor de argila entre 15% e 35% (solo muito argiloso retrai na secagem; muito arenoso não tem coesão suficiente). É necessário ensaio de granulometria ou pelo menos o ensaio manual de Atterberg antes de usar a terra do terreno.

Cura mínima de 7 dias: O tijolo prensado não pode ser usado imediatamente. Precisa de 7 dias de cura úmida (coberto e molhado duas vezes ao dia) para atingir resistência mínima. Isso exige planejamento da produção.

Não é normatizado como bloco principal pela ABNT: A NBR 10832 classifica o solo-cimento como material de vedação. Obras que precisam de ART (anotação de responsabilidade técnica) com uso estrutural precisam de ensaio de resistência do lote e aprovação do engenheiro responsável.

Precisa de proteção contra umidade: O tijolo de solo-cimento é poroso. Sem impermeabilização externa (selador, tinta impermeabilizante ou revestimento), a parede absorve umidade e pode deteriorar em regiões com chuva intensa. A proteção mínima recomendada é selador acrílico em todas as faces expostas.

Não funciona em todas as regiões: Em regiões muito chuvosas sem proteção adequada da cobertura, ou em solos ricos em sais (regiões litorâneas), o desempenho do tijolo ecológico sem reboco é inferior ao tijolo cerâmico com reboco e pintura.

Prensa é necessária: A compra de uma prensa manual custa R$ 2.500–5.000. Prensa motorizada: R$ 8.000–20.000. O aluguel existe em algumas cidades, mas não é universal.

Onde tem mais disponibilidade no Brasil

O tijolo ecológico tem produtores em todo o país, mas a concentração maior de fabricantes e a maior familiaridade com o sistema construtivo estão em:

  • Centro-Oeste: Goiás, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais têm solos com excelente granulometria para solo-cimento. Região com maior tradição de uso.
  • Sudeste (interior de SP e MG): Grande número de fabricantes e construtores com experiência.
  • Sul: Santa Catarina e Rio Grande do Sul têm fabricantes ativos, especialmente para construção rural.
  • Nordeste: Crescimento recente, com programas habitacionais que adotaram o tijolo ecológico em Ceará e Bahia.

Capitais grandes têm menos disponibilidade de terra adequada para produção em obra, mas têm fabricantes que entregam o tijolo pronto.

Para encontrar fabricantes: pesquise “tijolo ecológico + sua cidade” ou acesse associações como a ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland), que mantém lista de produtores certificados.

Comparativo de custo total: casa de 60 m²

Para tornar concreto: estimativa de custo comparado só da alvenaria de vedação de uma casa simples de 60 m² (estimativa de 120 m² de parede líquida, já descontadas aberturas):

SistemaCusto da alvenariaCusto de rebocoEconomia em instalaçõesCusto total parede pronta
Tijolo ecológico aparenteR$ 5.280–9.000R$ 0 (aparente)-R$ 2.500R$ 2.780–6.500
Tijolo ecológico com rebocoR$ 5.280–9.000R$ 4.200–6.600-R$ 2.500R$ 6.980–13.100
Tijolo cerâmico com rebocoR$ 7.560–11.520R$ 4.200–6.600R$ 0R$ 11.760–18.120
Bloco de concreto com rebocoR$ 8.520–12.840R$ 4.200–6.600R$ 0R$ 12.720–19.440

Em parede aparente, a economia é substancial. Em parede com reboco, a vantagem se reduz mas ainda existe.

Para quem faz sentido

Faz muito sentido para:

  • Autoconstrutores com tempo para produzir os tijolos e terra disponível no terreno
  • Projetos de casa de campo, chalé, pousada ou construção rural
  • Construções que valorizam estética natural/sustentável com parede aparente
  • Obras com arquiteto que já tem experiência com o sistema
  • Regiões Centro-Oeste e interior de MG/SP onde há tradição construtiva com o material

Faz menos sentido para:

  • Obras urbanas com prazo apertado e terceirização total
  • Regiões litorâneas com alto teor de sal no ar
  • Regiões com chuva muito intensa sem cobertura generosa
  • Projetos com laje e múltiplos pavimentos (sem ensaio e projeto específico)
  • Quem não tem acesso a terra de qualidade e precisa comprar tudo pronto (a vantagem de custo diminui muito)